quinta-feira, 21 de abril de 2011

eu, crítico de mim, considero esses os melhores versos que já fiz.

Um poema de hoje (disfundido)
                       por Danilo Ribeiro

observação

um poemão me ameaça
(quero encarnar um certo espírito faziador)
aqueles poemões que rendem, no mínimo, cinco páginas, sabe?
(mas quero um fazimento de lembranças prévias que sujam poema)
andar querendo saber de insignificâncias
não diverge do azul


retomada

sorriso de touro tem matéria prima
é boceta de vaca em fim de mijada
soube hoje que fazer poemão é atividade assemelhada a cheirar boceta de vaca molhada de mijo

parafuso de a menos na cabeça de Deus é o pau do porco
pau de cachorro é intirável de cadela

agatear foda de gente leva grito e unha
pode-se, querendo, trepar em telhado

acoelhar foda de gente pode ser:
meiafodar;
cair de gozada.

Decassílabo não é passarinho
tenho um casal de versos na gaiola
enquanto a decassílaba faz ninho
o decassílabo toca viola.
Brincar de fazer verso cantador
desocupa o apassarinhador
na inatividade de ver atento
a cópula dos versos que fecundam
ovos de versos que nascem e abundam
e passarinham o engaiolamento.

encarar de frente
as bocetas
fazer-lhes observações
só bocetas paridas conhecem olhar a priori

relações fundamentais entre verbos:
amar é filho de mamar;
poemar é gêmeo siamês de reticenciar

mainha me ensinou a ser fingido a poesia
eu tinha costas de lavamento de rede de balanço
eu era um tronco de angico
eu era sutil a trator de esteira

triangulei amor com minha mãe e uma camisa azul
ela passava roupa
dizia sempre que eu adorava a camisa
o cheiro do azul delirava minha mãe
aprendi com ela a delirar de cheiro
mainha me ensinou a ser fingido a poesia

Infanciar em Lambedor é atividade refletida a lirismos
menino sobe em pé de siriguela
abrimento de cu
caimento de bosta
fechamento de cu

lembrança pesa mais que luz

sempre houve sobras laterais de mim
arestas vértices continuidades
tendentes a tombar copos em mesa
é de indelicadeza que se nutre
todo verso é de brutalidade
que se nutre toda lira excrescente
sobras de mim não foram aparadas
sobras de menino sombras de menino
(um dois três quatro cinco seis sete oito)

minhocas de cajaraneira são melhores pra traíra

nadar em açude
uma tarde inteira
com o sol escaldante
cria fechamento
de fuça e pulmão
menino sem fôlego
aprende bem cedo
sobre o oxigênio
não é necessário
que a necessidade
não tem serventia
para quem faz verso

a terceira coisa mais cheirosa do mundo
é suor de cavalo
bosta de cavalo é a segunda mais cheirosa
as costas de mainha fazendo tapioca de manhãzinha tem um cheiro azul
é a coisa mais cheirosa do mundo

mainha eu cresci

fingimento

eu sou triste

--*--*--

2 comentários:

  1. É, caro Danilo, a História é bosta escrita pelo tempo...Acho que quem gosta mesmo de crescer é eucalipto...pra poesia, crescer é verbo defectivo,nada de primeira pessoa, graças a deus.E de tudo que escrevo há um traço indefeso dos retratos. Bjo. grande. Parabéns, tu tá danado nas moitas das palavras...

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  2. Gosto da desconstrução de seus versos, da forma como subestima a gramática, os substantivos, verbos,e, acima de tudo, de como superestima os palavrões. É maravilhoso deixar que as palavras descamisadas, marginalizadas, façam parte da praça do povo que é o poema.As palavras descalças conhecem melhor o chão.

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