segunda-feira, 25 de abril de 2011

gravura e trecho final do poema-anel "Liubliú" (Amo), de Maiakovski

Não acabarão nunca com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.
 



          [por Vladímir Maiakóvski (1922)]

--*--*--

quinta-feira, 21 de abril de 2011

eu, crítico de mim, considero esses os melhores versos que já fiz.

Um poema de hoje (disfundido)
                       por Danilo Ribeiro

observação

um poemão me ameaça
(quero encarnar um certo espírito faziador)
aqueles poemões que rendem, no mínimo, cinco páginas, sabe?
(mas quero um fazimento de lembranças prévias que sujam poema)
andar querendo saber de insignificâncias
não diverge do azul


retomada

sorriso de touro tem matéria prima
é boceta de vaca em fim de mijada
soube hoje que fazer poemão é atividade assemelhada a cheirar boceta de vaca molhada de mijo

parafuso de a menos na cabeça de Deus é o pau do porco
pau de cachorro é intirável de cadela

agatear foda de gente leva grito e unha
pode-se, querendo, trepar em telhado

acoelhar foda de gente pode ser:
meiafodar;
cair de gozada.

Decassílabo não é passarinho
tenho um casal de versos na gaiola
enquanto a decassílaba faz ninho
o decassílabo toca viola.
Brincar de fazer verso cantador
desocupa o apassarinhador
na inatividade de ver atento
a cópula dos versos que fecundam
ovos de versos que nascem e abundam
e passarinham o engaiolamento.

encarar de frente
as bocetas
fazer-lhes observações
só bocetas paridas conhecem olhar a priori

relações fundamentais entre verbos:
amar é filho de mamar;
poemar é gêmeo siamês de reticenciar

mainha me ensinou a ser fingido a poesia
eu tinha costas de lavamento de rede de balanço
eu era um tronco de angico
eu era sutil a trator de esteira

triangulei amor com minha mãe e uma camisa azul
ela passava roupa
dizia sempre que eu adorava a camisa
o cheiro do azul delirava minha mãe
aprendi com ela a delirar de cheiro
mainha me ensinou a ser fingido a poesia

Infanciar em Lambedor é atividade refletida a lirismos
menino sobe em pé de siriguela
abrimento de cu
caimento de bosta
fechamento de cu

lembrança pesa mais que luz

sempre houve sobras laterais de mim
arestas vértices continuidades
tendentes a tombar copos em mesa
é de indelicadeza que se nutre
todo verso é de brutalidade
que se nutre toda lira excrescente
sobras de mim não foram aparadas
sobras de menino sombras de menino
(um dois três quatro cinco seis sete oito)

minhocas de cajaraneira são melhores pra traíra

nadar em açude
uma tarde inteira
com o sol escaldante
cria fechamento
de fuça e pulmão
menino sem fôlego
aprende bem cedo
sobre o oxigênio
não é necessário
que a necessidade
não tem serventia
para quem faz verso

a terceira coisa mais cheirosa do mundo
é suor de cavalo
bosta de cavalo é a segunda mais cheirosa
as costas de mainha fazendo tapioca de manhãzinha tem um cheiro azul
é a coisa mais cheirosa do mundo

mainha eu cresci

fingimento

eu sou triste

--*--*--

segunda-feira, 18 de abril de 2011

pulmões e cérebro e neurotransmissores e toda merda mais...

respirar fundo
e uma grama depois
ser dono do mundo

respirar tudo
e outras gramas mais
o peito pulsa agudo

respirar tanto
e de tanta respiração
ofegar em pranto

enfim respirar
até acabar o dinheiro
até a vida acabar

                   (por Danilo Ribeiro)

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sexta-feira, 8 de abril de 2011

'Os demônios'

O seguinte texto, o primeiro não poético que publico neste blog, trata-se de artigo de Fernanda Torres o qual foi publicado na "Ilustrada", da Folha de São Paulo, no sábado passado. Retirei do blog do poeta Antonio Cícero (http://antoniocicero.blogspot.com/)


Os demônios

NO CLÁSSICO romance de Fiodor Dostoiévski "Os Demônios", revolucionários radicais atuam clandestinamente, incitando a população a vaiar o poeta Stiepan Trofímovitch durante o sarau de uma pequena cidade do interior da Rússia. O objetivo do grupo é exterminar uma arte considerada burguesa.


Trofímovitch responde com veemência à agressão:


"Eu proclamo (...), proclamo que Shakespeare e Rafael estão acima da libertação dos camponeses, acima da nacionalidade, acima do socialismo, acima da nova geração, acima da química, acima de quase toda a humanidade, porque são o fruto, o verdadeiro fruto de toda a humanidade e, talvez, o fruto supremo, o único que pode existir! É a forma da beleza já atingida, e sem atingi-la eu talvez já não concordasse em viver..."


O caso de amor e ódio da arte com a sociedade provoca reações passionais. No Brasil, já fui testemunha de pelo menos um momento de ojeriza explícita que culminou com o fechamento sumário da Embrafilme.


Os mesmos ataques de agora, calcados na dependência do dinheiro público e na formação de panelas culturais, culminaram com a decisão do ex-presidente Fernando Collor de decretar o fim da estatal sem temer represálias.


O cinema demorou mais de dez anos para se reestruturar.


Antes da criação da Lei Sarney, em 1986, os subsídios culturais aconteciam por meio de patrocínio, dinheiro dito bom, de propaganda das empresas. Mas chegou-se à conclusão de que esse sistema era elitista e favorecia os artistas mais conhecidos.


O modelo foi enterrado e as leis de incentivo surgiram para democratizar a relação do empresariado com a cultura.


Durante os oito anos de FHC, a política do Planalto ampliou os subsídios e deixou que o mercado se autorregulasse. Quando Lula assumiu, o MinC decidiu exercer um controle mais incisivo.


As dúvidas em relação à necessidade dos artistas consagrados utilizarem tais benefícios vem ganhando força desde então.


O ex-ministro da Cultura Juca Ferreira já chamava a atenção para os dividendos que a associação de um artista de renome com marcas e produtos trazia para as empresas e defendia, em tais casos, a entrada de dinheiro bom na negociação.


Carmen Mello, produtora associada a mim e a minha mãe, tenta desde 2008 convencer as firmas envolvidas a empregarem, como antigamente, sua verba de propaganda nos espetáculos que produz. Mas, sem as leis de isenção, não há interesse.


Não se deve crucificar artistas e empresários. Ninguém deseja para si a pecha de onerar o povo para poder existir. Há mais de 20 anos, todo o mercado foi direcionado para agir segundo as normas vigentes. A volta do patrocínio precisaria ser motivada.


Maria Bethânia estreou seu espetáculo de poesia sem apoio de nenhum benefício fiscal. A bilheteria do teatro do Fashion Mall, no Rio de Janeiro, cobriu os custos e o público fiel foi suficiente para lotar a curta temporada sem maiores gastos com publicidade.


Bethânia produziu uma obra de delicadeza tão notável que incitou Hermano Vianna a levá-la para a internet, de graça e por toda a vida. Todas as empresas contatadas desejaram se aliar ao projeto, mas insistiram nas leis de incentivo.


Bethânia cobrou pela elaboração, feitura e doação "ad eternum" de seus direitos de imagem para veiculação gratuita, R$ 1.643 por vídeo. O Minc, que aprovou outros sites por valores até superiores, entendeu que era justo.


A manchete na primeira página afirmando que Bethânia receberia R$ 1,3 milhão para fazer um blog, apesar de verdadeira, sugere falcatrua e má-fé.


O site "O Brasil Precisa de Poesia" se transformou no bode expiatório da encruzilhada da política cultural brasileira. Aberrações graves poderiam ter servido de exemplo, mas queimar uma feiticeira da dimensão de Bethânia tem um valor insubstituível do ponto de vista do escândalo.


O Brasil subsidia infindáveis setores de sua produção, o papel que imprime este jornal inclusive.


Do total desse investimento, um por cento é destinado à cultura.


A economia criativa, propulsora de grandes negócios no mundo civilizado, está engessada no nosso país. A arte foi estatizada e se transformou, à vista do público, em um pária dependente do tesouro.


Talentos como o de Bethânia teriam um valor inestimável e seriam remunerados à altura se encontrássemos uma maneira de fazer a poesia e a educação participarem da economia da sétima potência mundial.

Algum carro, xampu ou refrigerante se interessaria em associar sua imagem a Guimarães Rosa e a Fernando Pessoa?

quinta-feira, 7 de abril de 2011

o jazer do poema

há de vir o dia
em que o silêncio e a inércia
comporão 
minha última poesia

uma noite há de vir
imensamente quieta
e meu coração
finalmente vai domir

              (por Danilo Ribeiro)
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segunda-feira, 4 de abril de 2011

samurai-zen-budista. Leminski. 'viver não tem cura'.

Letras eternas
     por Paulo Leminski

Leite, leitura
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo,tudo,tudo
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura

--*--*--

domingo, 3 de abril de 2011

poema entranhado nas gentes


Soneto solium ou sarginata
                          por Danilo Ribeiro

Um marinheiro solitário
num mar de fluidos navegando.
Nem barco, nem vento soprando
vela, marujo, em teu calvário.
                                                
O intestino, grande cenário,
do andarilho zig-zagueando
metros de tripa desbravando
quase chegando ao sanitário.

Carne de porco ou duma vaca
em um almoço ou num jantar
foi consumida à gafo e faca. 

E se eu pudesse me tornar
esse hóspede que ao homem ataca
atacaria até matar!

--*--*--