Um poema de hoje (disfundido)
por Danilo Ribeiro
observação
um poemão me ameaça
(quero encarnar um certo espírito faziador)
aqueles poemões que rendem, no mínimo, cinco páginas, sabe?
(mas quero um fazimento de lembranças prévias que sujam poema)
andar querendo saber de insignificâncias
não diverge do azul
retomada
sorriso de touro tem matéria prima
é boceta de vaca em fim de mijada
soube hoje que fazer poemão é atividade assemelhada a cheirar boceta de vaca molhada de mijo
parafuso de a menos na cabeça de Deus é o pau do porco
pau de cachorro é intirável de cadela
agatear foda de gente leva grito e unha
pode-se, querendo, trepar em telhado
acoelhar foda de gente pode ser:
meiafodar;
cair de gozada.
Decassílabo não é passarinho
tenho um casal de versos na gaiola
enquanto a decassílaba faz ninho
o decassílabo toca viola.
Brincar de fazer verso cantador
desocupa o apassarinhador
na inatividade de ver atento
a cópula dos versos que fecundam
ovos de versos que nascem e abundam
e passarinham o engaiolamento.
encarar de frente
as bocetas
fazer-lhes observações
só bocetas paridas conhecem olhar a priori
relações fundamentais entre verbos:
amar é filho de mamar;
poemar é gêmeo siamês de reticenciar
mainha me ensinou a ser fingido a poesia
eu tinha costas de lavamento de rede de balanço
eu era um tronco de angico
eu era sutil a trator de esteira
triangulei amor com minha mãe e uma camisa azul
ela passava roupa
dizia sempre que eu adorava a camisa
o cheiro do azul delirava minha mãe
aprendi com ela a delirar de cheiro
mainha me ensinou a ser fingido a poesia
Infanciar em Lambedor é atividade refletida a lirismos
menino sobe em pé de siriguela
abrimento de cu
caimento de bosta
fechamento de cu
lembrança pesa mais que luz
sempre houve sobras laterais de mim
arestas vértices continuidades
tendentes a tombar copos em mesa
é de indelicadeza que se nutre
todo verso é de brutalidade
que se nutre toda lira excrescente
sobras de mim não foram aparadas
sobras de menino sombras de menino
(um dois três quatro cinco seis sete oito)
minhocas de cajaraneira são melhores pra traíra
nadar em açude
uma tarde inteira
com o sol escaldante
cria fechamento
de fuça e pulmão
menino sem fôlego
aprende bem cedo
sobre o oxigênio
não é necessário
que a necessidade
não tem serventia
para quem faz verso
a terceira coisa mais cheirosa do mundo
é suor de cavalo
bosta de cavalo é a segunda mais cheirosa
as costas de mainha fazendo tapioca de manhãzinha tem um cheiro azul
é a coisa mais cheirosa do mundo
mainha eu cresci
fingimento
eu sou triste
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