Balada da dor no peito
por Danilo Ribeiro
Desde logo que acorda,
percebe que aquele nó,
como um nó cego de corda,
ainda entrava o gogó.
Um poeta dá pigarro,
mas continua fechada
a garganta do teimoso.
O certo é que não há nada
que possa fazer um poeta
pra fechar seu peito aberto
nem abrir sua garganta
nem sair do seu deserto.
Dividido em quatro partes,
como batendo pra dentro,
ficando pequenininho,
como se houvesse no centro
a dor que puxa o mesquinho,
mais mesquinho sentimento,
é o estado do momento
do peito desse poeta
se metendo a escrever
a respeito do pateta
sentimento de viver.
Dos sentimentos constantes,
mais desprezível, talvez,
seja aquele que em instantes
quer que passe um dia, um mês,
e mesmo as dores bastantes
frutos dessa estupidez
não fazem cessar os errantes
passos dessa morbidez.
Um poeta é insistente,
teima, preserva latente
o gérmen da dor que sente,
a causa de embriaguez.
Nem beber toda a cachaça,
nem cheirar a cocaína,
nem fumar toda a fumaça,
e tudo mais que alucina
pode mudar a amargura
do peito do imbecil,
mas ele vai escrevendo
sem preencher o vazio.
Quanto mais verso lapida,
quanto mais verbo enlouquece,
mais folha branca na vida
e mais espaço aparece.
O peito do fingidor
se comporta de tal forma
(em respeito à rima antiga,
mas sem seguir muita norma)
dilatando seu pungido,
retraindo, logo após,
vasculariza o ferido
sofrimento mais atroz
que se espalha pelo corpo
circulando nas artérias
as dores que são matérias
primas-irmãs do lirismo
(ou dores de carpideiras,
eis em poesia o batismo...).
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