sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Obviamente as baladas do poetinha me são caríssimas. Segue uma balada, essa feita por mim, há pouco mais de ano, ou nem isso...


Balada da dor no peito
        por Danilo Ribeiro

Desde logo que acorda,
percebe que aquele nó,
como um nó cego de corda,
ainda entrava o gogó.
Um poeta dá pigarro,
mas continua fechada
a garganta do teimoso.
O certo é que não há nada
que possa fazer um poeta
pra fechar seu peito aberto
nem abrir sua garganta
nem sair do seu deserto.
Dividido em quatro partes,
como batendo pra dentro,
ficando pequenininho,
como se houvesse no centro
a dor que puxa o mesquinho,
mais mesquinho sentimento,
é o estado do momento
do peito desse poeta
se metendo a escrever
a respeito do pateta
sentimento de viver.
Dos sentimentos constantes,
mais desprezível, talvez,
seja aquele que em instantes
quer que passe um dia, um mês,
e mesmo as dores bastantes
frutos dessa estupidez
não fazem cessar os errantes
passos dessa morbidez.
Um poeta é insistente,
teima, preserva latente
o gérmen da dor que sente,
a causa de embriaguez.
Nem beber toda a cachaça,
nem cheirar a cocaína,
nem fumar toda a fumaça,
e tudo mais que alucina
pode mudar a amargura
do peito do imbecil,
mas ele vai escrevendo
sem preencher o vazio.
Quanto mais verso lapida,
quanto mais verbo enlouquece,
mais folha branca na vida
e mais espaço aparece.
O peito do fingidor
se comporta de tal forma
(em respeito à rima antiga,
mas sem seguir muita norma)
dilatando seu pungido,
retraindo, logo após,
vasculariza o ferido
sofrimento mais atroz
que se espalha pelo corpo
circulando nas artérias
as dores que são matérias
primas-irmãs do lirismo
(ou dores de carpideiras,
eis em poesia o batismo...).

 --*--*--

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Poema escrito há uns anos, após ver 'Árido Movie', com o excepcional Selton Mello.


Camarão sertanejo
        por Danilo Ribeiro 

Mar calmo mar
Balança lento leve sertão e mar
Marola avança vem volta vem
Crustáceo do mar do sertão
Camarão verde
Cabeça de vapor

--*--*--

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Carlos é inevitável, meu deus, se houvera.

O seu santo nome
           por Carlos Drummond de Andrade

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão ( e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.

--*--*--

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Poema um pouco antigo. Pedante. Mas fiel ao tempo em que se escreveu.


Leon
         por Danilo Ribeiro

Minha oração, que é subordinada, às vezes,
que, à prosódia, deve a métrica poética,
reza em terço de rosário catacreses,
mas coordena livre linguagem zetética.

Minha linguagem, entre linhas e teses,
não impera categoricamente ética,
lembra grama ática de sal de burgueses,
porém quer destes subverter a estética.

Minha filosofia, camarada é
vocativo. Chama a luta pelo pão,
mas só pão é pouco para o que ela quer.

Minha meta, poesia, evocação,
querem, tal Leon, no tempo que vier,
destes versos a total compreensão.

--*--*--

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Homenagem ao aniversário de 80 anos do genial poeta Augusto de Campos (14/02/2011). Um dos 2 maiores poetas vivos no Brasil.

(por Augusto de Campos)

"Mede-se a voltagem de um poema pelo seu poder de excitar pensamentos, sensações, imagens, emoções imbricados ou ligados uns nos outros. Os de Augusto de Campos têm essa propriedade em nível altíssimo..." (Antonio Cícero)


*quem tiver interesse de ler o texto completo de Antonio Cícero sobre o poema de A. de Campos, recomendo, pois aflora uma análise poética reveladora: http://www.erratica.com.br/opus/104/cicero.html



segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

tanto contra despedaça poema!


contra-
           dizendo- 
                        se
o que
         penso
                  é torto
vi
    ex-
         ato
               contra-
                         indo
ideia
         contra-
                    mão
 
                           

(*por Danilo Ribeiro)

--*--*--

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Haikai 5


danilo já morreu
            mil vezes me confundindo
se sou ele ou se sou eu

                                               (por Danilo Ribeiro) 


--*--*--

sábado, 12 de fevereiro de 2011

'como é bom lembrar, mas dói, mas dói', canta Chico César. Seguem versos antigos.


Saudade
        por Danilo Ribeiro

Tu, gravidade, do olho levas
a lágrima que cai suave
cruzando a face até que lave
uma saudade feito trevas.

Sei que tu, tempo, relevas
ao rogar-te por uma nave
que saia do agora e só crave
na alegria. Lá tu te entrevas.

Mas é só esse o sentimento
da mãe que viu o tempo passar
levando-lhe longe o rebento.

Só uma mãe pode conjugar
na lembrança de um bom momento
o tamanho do verbo amar.


--*--*--

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Haikai 4


Economizando:
as palavra do poema
vêm de contrabando.

                (por Danilo Ribeiro) 




segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Duas paixões: a poesia e o futebol. Cada qual com sua forma: a métrica e a tática. Um único sentimento: indescritível.

O sertanejo também ama
                     por Danilo Ribeiro

Por quem bate o coração
do sertanejo valente
que semeia a terra quente
fazendo sua plantação
de milho, arroz e feijão?
E o coração do que mora
cidades sertão à fora,
por quem pode ele bater,
se alegrar ou sofrer,
sentir no peito uma espora?

Desde novo, o sertanejo
alimenta um amor distante,
mesmo assim firme e constante,
que lhe provoca um desejo
de celebrar em cortejo
quando o amor lhe dá alegria;
mas que igualmente agonia
o amor à distância traz
porque é duro amar demais
só vendo fotografia.

Quem terá então coragem
de proclamar com arrogância
que por causa da distância
esse amor pela imagem
provoca menos vertigem?
Quem, insano, desconhece
o amor que tanto mais cresce
quanto mais difícil for
ser, de longe, torcedor
de um time lá do sudeste?

Como domingo não pode
ver seu time no estádio,
escuta, chiando, o rádio,
berrando tal qual um bode.
Do sertanejo é a ode:
amar verdadeiramente
seu time, que mal pressente
que provoca um turbilhão
que não tem explicação.
Quem amar futebol sente!

--*--*--

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Cada poeta com sua arte.


O poeta cu
         por Danilo Ribeiro

Escrevendo sua obra
Em papel higiênico
Tem feito muito verso
O poeta excêntrico

Sua tinta especial
É merda pura
Com risco de bosta
Faz assinatura

Muito criativo
O redondo poeta
Aproveita a caganeira
E rabisca cueca

Apenas de pirraça
Quando lhe convém
O poeta dá um peido
E mais um verso vem

*--*--*

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Ahhh! Os sonhos... e a luta perene de Eros X Thanatos. Sobreviver, então, enquanto dure...


Antionírico
        por Danilo Ribeiro

Apalpo minha incompletude ordinária de pessoa.
Fragmentos ásperos de morte desenfreada.
Repercuto-me convenientemente a inabstração certa da existência.
Não há nada de absurdo sobre a terra.
Emancipação não há, portanto.
Pereço de sonhos.

*--*--*