segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Os versos abaixo, do poeta antilírico João Cabral de Melo Neto, me são fundamentais nas segundas-feiras:

Difícil ser funcionário*
      por João Cabral de Melo Neto

Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança

Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar...
Fazer seu nojo meu...

Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.

*João Cabral de Melo Neto, 1920/1999
--*--*--

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Quis fazer uma letra de música sobre 'flor'. Como não sei nada de música, findei fazendo um poema. Palavra escrita é minha matéria.

A palavra flor
              por Danilo Ribeiro


deitar-se, papola, delírio
ouvir Jesus Cristo falando de preguiça
entrever o balanço dos campos de lírios
e um cravo branco
flores cheiram fins
falta uma flor em todos os jardins

dona flor, dona flor, dona flor
as flores são ingratas
colhidas morrem
sem mais nem menos
como se nunca houvesse Vênus

Rosa na roda,
rosa na máquina,
apenas rósea.

o cravo vermelho já morreu faz tempo
daquela primavera não restou semente
nem sequer cheirinho de alecrim
Magnólias, Hortências, Jasmins
fendem lábios, fecham pétalas
tem uma flor a menos nos jardins

Minha flor, minha flor, minha flor
as flores são ingratas
colhidas morrem
sem mais nem menos
como se nunca houvesse Vênus

não é sentimento a palavra amor
serve somente e tão somente
a rimar com flor
e a palavra amor procura impotente
em todos os jardins uma flor ausente

flor, flor, flor
a palavra flor é tão ingrata
não vai ser colhida no campo
não vai ser colhida na mata
em todos os jardins é a flor de menos
não tem serventia à palavra Vênus
a palavra flor, minha flor, dona flor
serve unicamente à declaração de amor

*--*--*

domingo, 23 de janeiro de 2011

Paulo Leminski disse: ''Rimo, rimas, miras, rimos,/ como se todos rimássemos, como se todos nós ríssemos,/ se amar (rimar) fosse fácil.''.




dominguei leminski
tudo estava consentido
lua fazia
só não vazia incontido

                      *por Danilo Ribeiro
--*--*--




' Deus, que será de ti, quando eu morrer?/ Eu sou teu cântaro (e se me romper?)/ A tua água (e se me corromper?)/ Sou teu agasalho, sou teu afazer. ' (Rainer Maria Rilke). Mais um poema meu segue abaixo.


Utilidades de árvore
                  por Danilo Ribeiro

plantada na frente da minha casa
funciona:
de sombra pro meu carro
de sombra pra o carro dos filhos da puta que tiram a sombra do meu carro
de sombra pra pedintes cansados
de lugar em que, na madrugada, eventualmente, podem mijar transeuntes
de lugar em que mijam, com mais frequência, cachorros
de alimento, com suas flores, pra borboletas
de alimento, com suas sementes, pra morcegos
de ladeira pra subida de formigas pretas fedorentas a merda que não sei o que vão fazer no alto
de estrutura orgânica que, na luz do sol, pela fotossíntese, fabrica meu oxigênio
de estrutura orgânica que, sem luz, respira meu oxigênio
de lugar pra eu pendurar uma corda.


3/11/2010

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Manoel de Barros me guia: "no escritório de ser inútil/ passo horas descascando palavras."



Poema indelicado
              por Danilo Ribeiro 


Nega, tenho natureza de andar torto.
Unha de dedo mindinho cai sempre.
Chuto cantos.
Eu verbo derrubar.
Criaturinhas e coisinhas de deus, não se lhes ponha em minhas mãos.
Tenho hábito de feder palavra bonita.
Carinho, por exemplo, é palavra que malcheira minha poesia:

Cuida dos filhos com carinho
Besouro rola-bosta
Enchendo de merda o ninho

Mas se for corajosa, me dá o coração!
Afago com carinho com pé com mão.
Dou minha palavra de poeta, que é só essa que sei dar, Nega.



*Feito para Mariana Queiroz, depois de conversarmos longamente sobre as coisas desimportantes do mundo e de nós. Só essas coisas são verdadeiras.

20/01/2011

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Às vezes o poema cansa a gente e dá uma saudade da gente mesmo, e dos "amigos do passado, do presente, do particípio", do gerúndio, do carai de asa...


Cansei
          por Danilo Ribeiro
 
é o bastante
toda essa besteira é o bastante
todo esse cuidado com a palavra
palavra boa é VÁ-SE-FODER
(nada melhor que uma boa foda
trepada escatológica
com alguma Alberta,
Flávia, flácida ou durinha,
diria Thiago, porra!)
poema é viadagem sem limite
podem ir pra puta que pariu o poema o poeta o idiota do leitor
também vou me mudar pra lá
morar na casa do caralho
num buraco de boceta

*Esse poema eu fiz lembrando de uma dessas pessoas que a gente mal conhece e se identifica imediatamente, ai depois se perde na profusão das coisas acontecidas. Por onde andamos, meu brother Thiago Arruda?

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Morre criança no Piaui. O poema é brasileiro. Chove no Rio. O poema continua brasileiro.


Poema continua brasileiro 
                             por Danilo Ribeiro 

Noticiário no canal de televisão
Pobre contado aos montes
Atualizando os números
Mais de 100 mortos no Estado do Rio de Janeiro
Comerciais no canal de televisão
Atualizando os números
Mais de 200 mortos no Estado do Rio de Janeiro
Comerciais no canal de televisão
Atualizando os números
Mais de 300 mortos no Estado do Rio de Janeiro
Comerciais no canal de televisão
Atualizando os números
Mais de 400 mortos no Estado do Rio de Janeiro
Comerciais no canal de televisão
Atualizando os números
Mais de 500 mortos no Estado do Rio de Janeiro
Comerciais no canal de televisão
Choveu demais no Rio de Janeiro meu Deus
A enxurrada levou até os cemitérios
E agora onde vai se descansar tanto pobre
Meu Deus?

14/01/2011



Link de acesso à Poema Brasileiro, de Ferreira Gullar: 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Senti vondade um dia de escrever sobre borboletas. Eis o poema. A data ao fim é o dia que conclui os versos.

 Cantata a borboletas e mariposas
                                           por Danilo Ribeiro 


Sujeito de dia:
Funcionário público
Borboleta
Etc.
Etc.
Etc.

Etc.
Etc.
Etc.
Mariposa
Bêbado que canta:
Sujeito de noite

Funcionário cedinho rega flores
E as borboletas
São tantas cores tantas cores tantas cores

Lição de funcionário a borboleta
Voar de planta em planta
Como carimbasse, rubricasse folha em folha

Lição de borboleta a funcionário
Chegar na hora, partir na hora
Cumprir horário

Debate de borboleta e funcionário
– Colorido: caleidoscópio de jardim
– Compostura: crisálida de bêbado

Mariposa se guia pela luz da lua
Perde o rumo com tanta lâmpada elétrica
Bêbado se guia pela próxima rua
Perde o rumo com uma canção tétrica

Lição de mariposa a bêbado
Não há flor de noite
Inseto voa ao redor de luz

Lição de bêbado a mariposa
Sujeito de noite que não voa
Resta cantiga dolorosa

Debate de bêbado e mariposa
– Borboleta: as azuis cantam serestas
– Funcionário: em memorando não cabem cores

28/11/2010

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Outro poema.


Meu tempo é passado
                 por Danilo Ribeiro 

Aos momentos e às pessoas
só posso oferecer
a intensidade de lembranças
Como os momentos e as pessoas
em mim só podem ser
enquanto foram
Sou um sujeito constituído fundamentalmente de foi
de fora
de seria
Habito em fotografias desfocadas
em histórias distorcidas
em memórias lacunosas
Estive em dores que passaram
em lágrimas, há muito, enxutas
A mim me coube romper a virgindade
das meninas que depois amariam de novo
A minha vida é perda
Não sou de quando
– O meu tempo é passado