terça-feira, 15 de novembro de 2011

Fases

Cemitério
   por Danilo Ribeiro


Hoje faz mil centro e trinta e um anos que alguém morreu triste
Hoje faz trezentos anos exatos que alguém morreu triste
Hoje faz cerca de cinco anos que alguém morreu triste
A assombração dos loucos enrijece meus músculos: fico duro
Penam almas no meu quarto e me tributam suas heranças
Entro em contato com minha psiquiatra
Conto tudo a meu amor que presencia o espetáculo
Quase inútil
Não aceito minha condição humana patética
Poderia mergulhar numa dessas ridículas e honestas ilusões do espírito
Poderia acreditar em alguma coisa como deus
Poderia ser praticante de alguma filosofia da emancipação do homem
Mas entendo mesmo é de nada nem desconfio
Hoje alguém morreu triste
Ainda não fui eu

--*--

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

domingo, 9 de outubro de 2011

Drummond, há um consolo: o destino é mesmo pra todos, findaremos, graças a deus, na vala-comum da existência.


Qualquer cidade
              por Danilo Ribeiro

Sem tetos entre lixeiras
mulheres entre varejeiras
fedor catar comer

um tapuru vai devagar
um porco vai devagar
um rato não tão devagar
rapidamente... os vermes comem

eita vida bosta, meu deus

--*--

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

a gente vai embora dos lugares e sabe, só depois, que sempre fica alguém exercendo a função fundamental de sonhar. esse poema fiz em conversa com uma pessoa que hoje toma, junto com outros, a tarefa de tentar levar o moviemento estudantil na minha velha universidade pras bandas do Ceará, Dany Clemente.

Poema para menininha
 por Danilo Ribeiro

A que veio ao mundo, menininha?
Quando nasceu, não o fizesse, o sol se poria
De rompante, menininha, virou gente
De você prescindem as monstruosas máquinas dos burgueses
De seu sorriso ou de sua lágrima prescinde a drástica ironia das tragédias
Sejamos práticos, menininha
A nada serve nossa existência
Como igualmente inútil é escrever um poema
E eu escrevo
Ainda assim, insistente, escrevo
Porque todo o pragmatismo cai ao chão ante um sorriso verdadeiro

--*--*--

domingo, 25 de setembro de 2011

Poema feito sob o som da super-música 'Atom Heart Mother' (Pink Floyd).

Músculo (necrópole)
          por Danilo Ribeiro

Um feixe de luz mergulha
nalgum lugar comum
infinito.
Numa casa de quatro quartos:
átrios e ventrículos,
onde há leitos aconchegantes
e sempre cabe mais um.
Mas o feixe apaga-se
na sombra da venosa perda,
e, na soturna sensação da distância,
o pulsar necrótico faz do infinito
infinito menos um pedaço.

--*--

domingo, 18 de setembro de 2011

Oscar [Malulco] Romero, meu irmão, vai colocar o nome de Vinicius no filho dele. Enquanto fiz uns versinhos pro poetinha, Oscar fez logo um menino... Justas homenagens!!

Inveja
         por Danilo Ribeiro


Não tenho amigos poetas
Tomo grandes porres
Mal leio poetas
Tenho muitos vícios
Todos imorais
Um dia eu acordo
Vinicius de Moraes
Tremendo de ressaca
De whisky importado
Falso

--*--

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Haikai 7. mais poeminha de bosta...


Hemorróida não tem cura:
É no sanitário
que o cagão faz sua leitura.


(por Danilo Ribeiro) 


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

o poema mais íntimo que já fiz...

De bicicleta como antigamente
(Para meu pai)

Temos um acordo tácito
de amor silencioso e eterno
Oferecemos um ao outro uma mão invisível
para nos erguer das quedas que sempre sofremos
de cachaça e descuido
E todo domingo nos vemos
no jogo de bola
ou pelos alpendres da casa erguida em meus miolos
Confesso que há em mim um pouco de medo de enlouquecer e de sofrer sozinho
Mas confio em nosso acordo
e podemos sair de bicicleta como antigamente
Não podemos?

 --*--*--

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Peguei esse poema, feito há 8 anos, e modifiquei um pouco para publicar. Isso é apaixonante das palavras, elas podem dormir no fundo da gaveta, e depois se remexem...

Conjecturas
       por Danilo Ribeiro


E se minha metade
Que vem de mamãe
Tivesse partido já há tempos
Numa menstruação qualquer?

E se minha metade
Que vem de papai
Tivesse partido já há tempos
Numa punheta qualquer?

Não se houvesse consumada
Minha incompletude
Qual penoso não havia
O trabalho de morrer?
--*--

sábado, 13 de agosto de 2011

Os dois poemas abaixo foram escritos em meio a lembranças da pessoa que mais decisivamente marcou a minha vida. E ele, meu pai, sequer leu esses versos, e nem sei se um dia lerá...

Fruto
        por Danilo Ribeiro

Paixão que veio do amor
Do amor inocente
Paixão que me criou
Me cria me criará
Paixão que vem de pathos
(vem de pater)
Meu (anti)herói
Meu eu-relógio-adiantado
Tão (anti)eu
Meu paixão

--*--

Enumeração de mediocridades de domingo
         por Danilo Ribeiro 



1. Poesia.
Para que poesia, meu poeta?
Para que encher papel de palavras malversadas
Que pesariam toneladas nas costas de um catador?

2. Futebol.
Meu poeta,
Se, de maneira geral, as paixões são idiotas,
O que dizer dessa paixão pelo Botafogo?
 
3. Lembrança.
Ah!, que tolice, a infância é imaterializável.
Duvido você ser capaz, meu poeta,
De lembrar, em sequência, de míseros dez minutos
De um domingo daquele tempo...

4. Lágrima.
Essa é estúpida, é risível,
É trementamente risível.
Qual motivo dessa lágrima, meu poeta,
Depois de um grito seu
Um berro FOOOGOOO!
Como aqueles que tanto seu pai deu?
 
--*--

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

foi-se um agosto, há alguns anos, de muita devassidão, instabilidade psíquica e desapego à vida...


Vai-te agosto
     por Danilo Ribeiro

Vai-te agosto
Leva tudo de novo que me trouxeste
Pro armário das lembranças confusas
Leva tua rima mais desgastada
Para os anais do sem fim
Porque não te quero mais
Mês desgraçado
Não quero teus aromas ferinos
Nem teus ares dormentes
Não quero tuas meninas
Nem tuas promessas de meninas
Não quero nada teu
Eu não quero não quero não quero
Eu quero é setembro
Mês de suor
Eu quero é o futuro
Que nunca chegará
Eu quero aclamar incansavelmente
As promessas que me faço

--*--

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Segundo Lispector, "pensar é um ato. sentir é um fato....".


mesmo que te chamasses
Ana
te quererias como quero
e com a mesma gana
e se acaso fosses
Maria
por ti que meu corpo
também tremeria
ou se te chamasses
apenas Neguinha
de qualquer forma serias
o amor da vida minha
ou se tivesses o nome
mais estranho
com sons impronunciáveis
e sílabas sem tamanho
minha vontade não mudaria
porque o que quer este poeta
é te fazer uma poesia
dizendo de toda forma
que te ama ama ama
minha nega
Mariana

         (por Danilo Ribeiro)
--*--*