quinta-feira, 26 de abril de 2012

Poema escrito há dois anos. Formas, fonemas e comprimidos nestes versos!


Poema aos fármacos: formal
                 por Danilo Ribeiro




Não sabe de prescrições medicamentosas
Não sabe de desencontrários
Não sabe de nada
E essa calma
Não sabe
Não
Só sabe
Que está calmo
Estado muito estranho
Sem grandiloquência e funduras
Não passa os dias chutando postes


Soube por alto que funcionam nele:
inibidores seletivos da recaptação de serotonina;
benzodiazepínicos;
sais de lítio.
De início, tem lhe parecido que seu gosto por formas e fonemas
não vem sofrendo maiores efeitos colaterais
(muito embora se trate de desvio que é, em si,
efeito colateral de uma forma particular de estar no mundo).
Mesmo assim isso é discutível.


virar japonês,
cultivar um bigodão...
só o erro tem vez!


Morasse o poeta Vicente no Brasil, e não se colocaria orelha de porco no feijão.
Se era tal poeta dos Países Baixos, subiu várias vezes ao país de Altair.


(reentrâncias bipolacas!)


os versos adiante,
como a estabilidade,
são muito irritantes


A realidade social que se
transforma nele em realidade orgânica
que se processa de forma mecânica,
conforme o código que basta a si,
– e que igualmente é quem traz em si
(o ácido desoxirribonucléico)
desvios do seu composto protéico –
tem ganhado formato inteligível.
Neurotransmissores, isso é visível,
botam ou tiram da linha o sujeito.


Não há nada mais
deslocado e desmedido
que os homens normais.


Repete em sua cabeça:
“Só há arte se houver forma!”.
Até que o dia amanheça:
Uma sextilha é a norma.
Para que ninguém esqueça,
Em sete pés se transforma!


Observa ele que, mesmo naqueles momentos mais tensos, só escreveu quando em estados moderados, quando a dor lhe era muito mais um material a ser transformado em outra coisa completamente distinta, que é a dor escrita. A dor escrita é sua matéria absoluta. Sobre os sentimentos, bastam-lhe os alheios, ou as dores de carpideiras. Quanto ao mais, crer que está nos limites da palavra a fonte de um certo prazer estético que atinge aqueles que, por desvio, gostam de poesia.


De porre num cabaré
Poesia recitar
Pois disforme também é
Um modo de formatar
Forma disforme até
A doçura de amargar


O desequilíbrio bioquímico
            do Sistema Nervoso Central
                        não é o equilíbrio métrico de seus versos.


(a recíproca também é falsa!)

--*--

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