Poema
aos fármacos: formal
por Danilo Ribeiro
Não sabe de prescrições
medicamentosas
Não sabe de desencontrários
Não sabe de nada
E essa calma
Não sabe
Não
Só sabe
Que está calmo
Estado muito estranho
Sem grandiloquência e
funduras
Não passa os dias chutando postes
Soube por alto que funcionam nele:
inibidores seletivos da recaptação de
serotonina;
benzodiazepínicos;
sais de lítio.
De início, tem lhe parecido que seu
gosto por formas e fonemas
não vem sofrendo maiores efeitos
colaterais
(muito embora se trate de desvio que é,
em si,
efeito colateral de uma forma
particular de estar no mundo).
Mesmo assim isso é discutível.
virar japonês,
cultivar um bigodão...
só o erro tem vez!
Morasse o poeta Vicente no Brasil, e
não se colocaria orelha de porco no feijão.
Se era tal poeta dos Países Baixos,
subiu várias vezes ao país de Altair.
(reentrâncias bipolacas!)
os versos adiante,
como a estabilidade,
são muito irritantes
A realidade social que se
transforma nele em realidade orgânica
que se processa de forma mecânica,
conforme o código que basta a si,
– e que igualmente é quem traz em si
(o ácido desoxirribonucléico)
desvios do seu composto protéico –
tem ganhado formato inteligível.
Neurotransmissores, isso é visível,
botam ou tiram da linha o sujeito.
Não há nada mais
deslocado e desmedido
que os homens normais.
Repete em sua cabeça:
“Só há arte se houver forma!”.
Até que o dia amanheça:
Uma sextilha é a norma.
Para que ninguém esqueça,
Em sete pés se transforma!
Observa ele que, mesmo naqueles
momentos mais tensos, só escreveu quando em estados moderados, quando a dor lhe
era muito mais um material a ser transformado em outra coisa completamente
distinta, que é a dor escrita. A dor escrita é sua matéria absoluta. Sobre os
sentimentos, bastam-lhe os alheios, ou as dores de carpideiras. Quanto ao mais,
crer que está nos limites da palavra a fonte de um certo prazer estético que
atinge aqueles que, por desvio, gostam de poesia.
De porre num cabaré
Poesia recitar
Pois disforme também é
Um modo de formatar
Forma disforme até
A doçura de amargar
O desequilíbrio bioquímico
do
Sistema Nervoso Central
não
é o equilíbrio métrico de seus versos.
(a recíproca também é falsa!)
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