sábado, 1 de dezembro de 2012

nos últimos 6 meses não escrevi uma linha sequer, só postei minhas coisas antigas ou versos de meus poetas. enfim, fiz algo novo...


minha megalomania
condenada
sempre
a nada

minha hipocondria
controlada
com uma pílula
dourada

minha poesia
empoeirada
e mais nada

                                   (por Danilo Ribeiro)

-*-

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Um poema que li há uns bons 8 anos e hoje apareceu nas entranhas da memória...

ANTIMETAFÍSICA TROPICAL 
           por Affonso Romano de Sant’ Anna


A Catedral de Colônia

é a visível costura
do verso, da pedra e história.
É a urdidura das classes,
o concreto em nosso dorso,
um calabouço de preces,
asilo de velhas juras.
A Catedral de Colônia
é um caldeirão de pecados,
um osso no meu pescoço,
a minha fome na mesa,
o meu remorso em fervura.
A Catedral de Colônia
é um buraco pelo avesso,
o ex-voto pela cura,
uma pedra de tropeço
Colônia à noite, a Catedral à direita
onde o cego se amargura.
É gravura de Bosch e Bruegel
o interminável cordel
alfinetando meu corpo
nordestino e tropical.
Ai que vontade de viver aqui
ao pé dos Alpes
ou num cartão-postal suíço qualquer
pastoreando eldeweiss.
Aqui
filosofar é trivial. Tão natural
quanto criar gerânios e violetas
num prado banal de borboletas.


O que eu queria
era ver:
Nietzsche
Kant
Heidegger
Schopenhauer
matutarem
– ali no agreste.   
O que eu queria
era ver
o nada
nascer
do nada
– e crescer
ali
onde cedo se aprende
a não ser nada
– e obedecer
ali
onde o homem não tem essência,
só fome, e a aparência é a carência
do próprio ser.
Queria ver filosofar
era ali
no Catolé do Rocha e Nanuque
ali
onde mulher derruba boi a muque
e enfrenta com o homem
os torneios da própria fome
ali
onde a mulher aprende a ingaia ciência
no curral da própria saia
ali
no ciclo bretão da seca
onde o boiadeiro tange o gado magro
dos 12 pares de França
e enfrenta Ferrabrás
e canta e dança
ali
no áspero sertão onde Rolando
se chama Lampião e morre na tocaia
e na trapaça
ali
na pedra do dia a dia
na Serra Talhada
onde se engole a sede aos tragos
e se inscrevem as façanhas
de Carlos Magno e Vilmar Gaia
ali
Lutero não reforma mais os seus mourões
nem corta o mato e o cupim
ali
Thomas Morus
com seu gibão de couro amarelo
pachorrento
se assenta nas barras do curral do dia
e ordenha com sabor de sal
a sua magra utopia.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Mais po(rno)ema. Braulio Tavares é o poeta, e os versos são os seguintes:

Poema da buceta cabeluda

A buceta da minha amada
tem pêlos barrocos,
lúdicos, profanos.
É faminta
como o polígono-das-secas
e cheia de ritmos
como o recôncavo-baiano.

A buceta da minha amada
é cabeluda
como um tapete persa.
É um buraco-negro
bem no meio do púbis
do Universo.

A buceta da minha amada
é cabeluda,
misteriosa, sonâmbula.
É bela como uma letra grega:
é o alfa-e-ômega dos meus segredos
é um delta ardente sob os meus dedos
e na minha língua
é lambda.

A buceta da minha amada
é um tesouro
é o Tosão de Ouro
é um tesão.
É cabeluda, e cabe, linda,
em minha mão.

A buceta da minha amada
me aperta dentro, de um tal jeito
que quase me morde;
e só não é mais cabeluda
do que as coisas que ela geme
quando a gente fode.


--*--


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Voltando a postar: segue um trecho de poema de cabaré do grande Noel Rosa!

O caralho é o pai de todos os mortais
Consolador de pombas e bocetas 
Alma dos cus e coração das gretas... 

(...)

Foi com quem sua mãe sempre se viu 
Ele é meu pai, seu pai, pai do soneto 
Pai da puta que o pariu! 


*Noel Rosa (1926)
** Trecho recitado no filme "Noel: poeta da vila"

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Poema escrito há dois anos. Formas, fonemas e comprimidos nestes versos!


Poema aos fármacos: formal
                 por Danilo Ribeiro




Não sabe de prescrições medicamentosas
Não sabe de desencontrários
Não sabe de nada
E essa calma
Não sabe
Não
Só sabe
Que está calmo
Estado muito estranho
Sem grandiloquência e funduras
Não passa os dias chutando postes


Soube por alto que funcionam nele:
inibidores seletivos da recaptação de serotonina;
benzodiazepínicos;
sais de lítio.
De início, tem lhe parecido que seu gosto por formas e fonemas
não vem sofrendo maiores efeitos colaterais
(muito embora se trate de desvio que é, em si,
efeito colateral de uma forma particular de estar no mundo).
Mesmo assim isso é discutível.


virar japonês,
cultivar um bigodão...
só o erro tem vez!


Morasse o poeta Vicente no Brasil, e não se colocaria orelha de porco no feijão.
Se era tal poeta dos Países Baixos, subiu várias vezes ao país de Altair.


(reentrâncias bipolacas!)


os versos adiante,
como a estabilidade,
são muito irritantes


A realidade social que se
transforma nele em realidade orgânica
que se processa de forma mecânica,
conforme o código que basta a si,
– e que igualmente é quem traz em si
(o ácido desoxirribonucléico)
desvios do seu composto protéico –
tem ganhado formato inteligível.
Neurotransmissores, isso é visível,
botam ou tiram da linha o sujeito.


Não há nada mais
deslocado e desmedido
que os homens normais.


Repete em sua cabeça:
“Só há arte se houver forma!”.
Até que o dia amanheça:
Uma sextilha é a norma.
Para que ninguém esqueça,
Em sete pés se transforma!


Observa ele que, mesmo naqueles momentos mais tensos, só escreveu quando em estados moderados, quando a dor lhe era muito mais um material a ser transformado em outra coisa completamente distinta, que é a dor escrita. A dor escrita é sua matéria absoluta. Sobre os sentimentos, bastam-lhe os alheios, ou as dores de carpideiras. Quanto ao mais, crer que está nos limites da palavra a fonte de um certo prazer estético que atinge aqueles que, por desvio, gostam de poesia.


De porre num cabaré
Poesia recitar
Pois disforme também é
Um modo de formatar
Forma disforme até
A doçura de amargar


O desequilíbrio bioquímico
            do Sistema Nervoso Central
                        não é o equilíbrio métrico de seus versos.


(a recíproca também é falsa!)

--*--

segunda-feira, 2 de abril de 2012

haikai 12.


quantos velórios virão
até o grande dia
em que eu estarei no caixão?

--*--

quarta-feira, 28 de março de 2012

quinta-feira, 8 de março de 2012

Não as deem flores, hoje não! Segue um poema que ouvi só uma vez e nunca esqueci. Da professora Cláudia Rejanne.

Amélia era a mulher de verdade?
         por Cláudia Rejanne Pinheiro Grangeiro

Eu rio
Choro
Grito
Falo
Gozo
Eu não dou trégua
Eu sou mulher de verdade
Não Amélia, aquela égua!
--*--

*OBS: a poeta é professora do Departamento de Línguas e Literatura da Universidade Regional do Cariri - URCA/CE)

quinta-feira, 1 de março de 2012

este poema foi feito há dez anos! adolescentes, além de bater punheta, gostam Legião Urbana e de rabiscar poesia. 'e quem há de negar que esta lhe é superior???'

Fúria vulcânica
        por Danilo Ribeiro

Na verdade
Não existe verdade
Nem mentira
Nem regra
Nem realidade
Nem nada existe
Nem consiste em nada.
É tudo um delírio momentâneo.
 
--*--

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Adorei escrever isso. Como há tempos não sentia esse prazer.

Correnteza 
      por Danilo Ribeiro

as vezes fico feliz demais
e acho tudo muito simples e azul
bendigo as coisas do amor e da vida
sorrio sorrio sorrio
sou um rio
esqueço meu tempo quase inteiro
mal-humorado 
pessimista
deprimido 
de pau mole
sendo é besta!
o tempo avoa a cabeça avoa
levanto fácil
quero é amar amar amar
o mar

--*--

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Vi uma lua absurda agora à noitinha. Então revisitei um poema que o fiz há um tempo. Se Liminski viu a lua no cinema, posso vê-la pela janela, pela tela, pela janela, quem é ela quem é ela...???

Quase secreta lua
      por Danilo Ribeiro

hoje vi um clarão
como se olhasse a lua
como se fosse ela
bem na janela da rua
quase me cega a língua
quase o olho me seca
sem querer deixar à míngua
vontade quase secreta

ah! sabor de lua
ao vê-la na janela
da quase secreta rua

--*--

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012