por Danilo Ribeiro
“Pra que chorar, se o sol já vai raiar, se o dia vai amanhecer
pra que sofrer, se a lua vai nascer, é só o sol se por”
Vinicius de Moraes
pra que sofrer, se a lua vai nascer, é só o sol se por”
Vinicius de Moraes
mesmo muito intrigante,
os poemas em suas lavras
a cultivar incessantes
lavouras de paradoxos,
canteiros de transgressão,
veem colher-se ortodoxos
textos de alta correção.
Se o que dizem os dicionários
as palavras obedecem,
a colheita é perdida,
os poemas adoecem:
pneumonias, hepatites,
obstruções dos colédocos
somada a pancreatites,
crises agudas de pânico,
ressacas imperiais,
infestação de bactérias
dentro das vias aéreas,
hipomania, tristeza;
são variados diagnósticos
constituindo a beleza
trágica de ser poema
cujo único destino
das palavras, dos fonemas,
é sofrer internação
sem perspectiva de alta
nos versos que acabarão
quando de rima houver falta.
Talvez alguma gramática,
ou um ensaio sobre clínica,
um compêndio de linguística,
uma ediçãozinha cínica,
uma publicação médica,
ou um volume de estética,
sejam páginas em que sonha
poder estar algum dia
a poesia medonha
do poema em agonia.
Há até certa revolta
ao poema, que robusto,
largo, eloquente, prolixo
– formatado a muito custo
pra ter no verso esse som fixo
– ao constatar-se um inútil,
que, não tendo o que fazer,
perde seu tempo no fútil
no excrescente prazer:
sons e palavras construir
para algum idiota ler
para algum babaca ouvir.
São tristes mesmo os poemas,
mas há possibilidade,
no horizonte de suas páginas,
de encontrar felicidade
caso a loucura os possua,
e sobre os versos doentes
pintem um céu, um sol, uma lua
com os tons mais reluzentes.
*Escrito na madrugada de 24/11/2010, internado
no hospital Memorial São Lucas, Alagoas.
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