quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Penúltimo poema meu postado esse ano.


Poema aos fármacos - 1: formal




Não sabe de prescrições medicamentosas
Não sabe de desencontrários
Não sabe de nada
E essa calma
Não sabe
Não
Só sabe
Que está calmo
Estado muito estranho
Sem grandiloquência e funduras
Não passa os dias chutando postes


Soube por alto que funcionam nele:
inibidores seletivos da recaptação de serotonina;
benzodiazepínicos;
sais de lítio.
De início, tem lhe parecido que seu gosto por formas e fonemas
não vem sofrendo maiores efeitos colaterais
(muito embora se trate de desvio que é, em si,
efeito colateral da sua forma particular de estar no mundo).
Mesmo assim isso é discutível.


virar japonês,
cultivar um bigodão...
só o erro tem vez!


Morasse o poeta Vicente no Brasil, e não se colocaria orelha de porco no feijão.
Se fora este poeta dos Países Baixos, subira várias vezes ao país de Altair.


(São notórias as reentrâncias bipolacas!)


os versos adiante,
como a estabilidade,
são muito irritantes


A realidade social que se
transforma nele em realidade orgânica
que se processa de forma mecânica,
conforme o código que basta a si,
– e que igualmente é quem traz em si
(o ácido desoxirribonucléico)
desvios do seu composto protéico –
tem ganhado formato inteligível.
Neurotransmissores, isso é visível,
botam ou tiram da linha o sujeito.


Não há nada mais
deslocado e desmedido
que os homens normais.


Repete em sua cabeça:
“Só há arte se houver forma!”.
Até que o dia amanheça:
Uma sextilha é a norma.
Para que ninguém esqueça,
Em sete pés se transforma!


Observa ele que, mesmo naqueles momentos mais tensos, só escreveu quando em estados moderados, quando a dor lhe era muito mais um material a ser transformado em outra coisa completamente distinta, que é a palavra escrita. A palavra escrita é sua matéria absoluta. Sobre os sentimentos, bastam-lhe os alheios, ou as dores de carpideiras. Quanto ao mais, crer que está nos limites da palavra a fonte de um certo prazer estético que atinge aqueles que, por desvio, gostam de poesia.


De porre num cabaré
Poesia recitar
Pois disforme também é
Um modo de formatar
Forma disforme até
A doçura de amargar


O desequilíbrio bioquímico
            do Sistema Nervoso Central
                        não é o equilíbrio métrico de seus versos.


(a recíproca também é falsa!)




*Danilo Ribeiro, madrugada de 5 de outubro de 2010.

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