quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O último poema que posto esse ano é de Affonso de Romano Sant’Anna, poeta de quem gosto bastante. São versos de esperança...

VAI, ANO VELHO
             por Affonso Romano de Sant'Anna

1

Vai, ano velho, vai de vez
vai com tuas dívidas
e dúvidas, vai, dobra a ex-
quina da sorte, e no trinta e um
à meia-noite, esgota o copo
e a culpa do que nem me lembro
e me cravou entre janeiro e dezembro.

Vai, leva tudo: destroços,
ossos, fotos de presidentes,
beijos de atrizes, enchentes,
secas, suspiros, jornais.
Vade retrum , prá trás,
leva pra escuridão
quem me assaltou o carro,,
a casa e o coração.

Não quero te ver mais,
só daqui a anos, nos anais,
nas fotos do nunca-mais.


2

Vem Ano Novo, vem veloz
vem em quadrigas, aladas, antigas
ou jatos de luz, moderna, vem,
paira, desce, habita em nós,
vem com cavalhadas, folias, reisados,
fitas multicores, rebecas,
vem com uva e mel e desperta
em nosso corpo a alegria,
escancara a alma, a poesia,
e, por um instante, estanca
o verso real, perverso
e sacia em nós a fome
-de utopia.

Vem na areia da ampulheta como a
semente que contivesse outra se-
mente que contivesse ou-
tra semente ou pérola
na casca da ostra
como se

se
outra se-
mente pudesse
nascer do corpo e mente
ou do umbigo da gente como o ovo
o Sol da gema no Ano Novo que rompesse
a placenta da noite em viva flor luminescente.

3

Adeus, tristeza: a vida
é uma caixa chinesa
de onde brota a manhã.

Agora
é recomeçar.
A utopia é urgente.

Entre flores de urânio
é permitido sonhar.

Affonso de Romano Sant’Anna
http://www.affonsoromano.com.br/

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Penúltimo poema meu postado esse ano.


Poema aos fármacos - 1: formal




Não sabe de prescrições medicamentosas
Não sabe de desencontrários
Não sabe de nada
E essa calma
Não sabe
Não
Só sabe
Que está calmo
Estado muito estranho
Sem grandiloquência e funduras
Não passa os dias chutando postes


Soube por alto que funcionam nele:
inibidores seletivos da recaptação de serotonina;
benzodiazepínicos;
sais de lítio.
De início, tem lhe parecido que seu gosto por formas e fonemas
não vem sofrendo maiores efeitos colaterais
(muito embora se trate de desvio que é, em si,
efeito colateral da sua forma particular de estar no mundo).
Mesmo assim isso é discutível.


virar japonês,
cultivar um bigodão...
só o erro tem vez!


Morasse o poeta Vicente no Brasil, e não se colocaria orelha de porco no feijão.
Se fora este poeta dos Países Baixos, subira várias vezes ao país de Altair.


(São notórias as reentrâncias bipolacas!)


os versos adiante,
como a estabilidade,
são muito irritantes


A realidade social que se
transforma nele em realidade orgânica
que se processa de forma mecânica,
conforme o código que basta a si,
– e que igualmente é quem traz em si
(o ácido desoxirribonucléico)
desvios do seu composto protéico –
tem ganhado formato inteligível.
Neurotransmissores, isso é visível,
botam ou tiram da linha o sujeito.


Não há nada mais
deslocado e desmedido
que os homens normais.


Repete em sua cabeça:
“Só há arte se houver forma!”.
Até que o dia amanheça:
Uma sextilha é a norma.
Para que ninguém esqueça,
Em sete pés se transforma!


Observa ele que, mesmo naqueles momentos mais tensos, só escreveu quando em estados moderados, quando a dor lhe era muito mais um material a ser transformado em outra coisa completamente distinta, que é a palavra escrita. A palavra escrita é sua matéria absoluta. Sobre os sentimentos, bastam-lhe os alheios, ou as dores de carpideiras. Quanto ao mais, crer que está nos limites da palavra a fonte de um certo prazer estético que atinge aqueles que, por desvio, gostam de poesia.


De porre num cabaré
Poesia recitar
Pois disforme também é
Um modo de formatar
Forma disforme até
A doçura de amargar


O desequilíbrio bioquímico
            do Sistema Nervoso Central
                        não é o equilíbrio métrico de seus versos.


(a recíproca também é falsa!)




*Danilo Ribeiro, madrugada de 5 de outubro de 2010.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Experimentos. Haikais 1, 2 e 3.

Haikai é um formato japonês de poema de três versos.  Matsuo Bashô, poeta nipônico, foi uma referência para Paulo Leminski, que popupularizou esse formato no Brasil. O curitibano morreu em 1989, de cirrose hepática. Os três que se seguem são experimentos que fiz com essa forma:

  
cirrose futura
e o meu primeiro haikai
ganha assinatura

-*-
 
sábio é o sapo
e os seus meninos
chamam-se girinos
                                                                -*-


palavras lamber
passar a língua nas sílabas
loucas de prazer



domingo, 12 de dezembro de 2010

Perdi um tempo do caralho pra fazer esse sonetinho meia-boca... Mas segue ai o resultado:


Sonetinho indiscutivelmente cafona
                                                por Danilo Ribeiro
 
Sempre teimosa a cabeça castiga,
na hipótese de mais uma menina,
fazendo o órgão, que não se vacina,
encher-se como se fosse a bexiga.

Mas não é a bexiga que se fatiga,
é o peito o local em que se aglutina
o dolorido que não sai na urina
mesmo que se mije por toda a vida,

pois é certo que ao coração não basta
para recuperar o seu vazio
verter ao chão uma mijada vasta.

O coração é besta, é um vadio,
se a bexiga enche, mija e nada resta,
e ele em doída pulsação a mil.

01/12/2010

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

'Deus disse: Faça-se a luz! E a luz foi feita.' (Gênesis, 1: 3)


Fiat lux
 por Danilo Ribeiro

I.

A folha é um espaço branco.
Ente desocupado insignifica esse espaço
com risco preto:
verso.

A noite é um espaço preto.
Ente desocupado insignifica esse espaço
com buraco branco:
lua.

Gente besta gosta de olhar para risco e para buraco
fica cego e cai. Acho é pouco!

II.

Treva tinha mesmo era antigamente.
Um Desbocado deu um jeito:
“faça-se o galo,
e outros que um sozinho num dá conta.”
Com cantiga de galo foi fácil.
O Desbocado disse que se fizesse a luz. Foi ai que as
trevas diminuíram mais.

Como o Desbocado era sozinho,
disse essas coisas em língua-nenhuma para a multidão de ninguéns
(língua-nenhuma é o dialeto arcaico com o qual deus se comunicava com os ninguéns).
Portanto, o primeiro ente desocupado a insignificar espaço branco
descendeu da etinia dos niguéns. A primeira palavra escrita foi em língua-nenhuma.

III.

Dos ninguéns, surgiu um desletrado em gramática de
língua-nenhuma. Nasceu para poeta.
Era tanta a sabedoria que não tinha, que desocupou vários dos seus dias e
inventou o hebraico. Chamava-se Moisés.
Escreveu adoidado. Tinha que insignificar muito espaço branco com a nova língua.
Aproveitou para contar a história do Desbocado que mandou que se fizesse a luz.
Não escreveu que o galo veio antes da luz. Todo mundo ia acreditar. Qual a graça?





07/12/2010
mais uma noite perdida.

‘Palavras de João’, o poema que se segue, é um diálogo com um personagem e com um poeta*

Palavras de João
             por Danilo Ribeiro
 
– Joaquim,
depois de comer comer comer
teve uma baita dor de barriga
vomitou tudo
cagou tudo
o amor.

Amor é assim mesmo,
finda sempre numa grande cagada.



*recomendo a leitura do trecho de ‘Os três mal amados’, de João Cabral de Melo Neto, com o qual dialogam os versos acima. Eis o link: http://www.releituras.com/joaocabral_malamados.asp

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Este é o primeiro poema postado. Inaugura minha atividade de administração do à toa, do em vão e do inútil, como diz o velhinho Manoel, meu poeta.

Fedentina
        por Danilo Ribeiro

cera de ouvido fede
boca fede
hálito fede
arroto fede
vômito fede
sovaco fede
ferida fede
pus fede
chulé fede
frieira fede
sebo fede
mijo fede
pica fede
menstruação fede
boceta fede
peido fede
merda fede
cu fede
gente fede


---------