por Affonso Romano de Sant’ Anna
A Catedral de Colônia
é a visível costura
do verso, da pedra e história.
É a urdidura das classes,
o concreto em nosso dorso,
um calabouço de preces,
asilo de velhas juras.
A Catedral de Colônia
é um caldeirão de pecados,
um osso no meu pescoço,
a minha fome na mesa,
o meu remorso em fervura.
A Catedral de Colônia
é um buraco pelo avesso,
o ex-voto pela cura,
uma pedra de tropeço
Colônia à noite, a Catedral à direita
onde o cego se amargura.
É gravura de Bosch e Bruegel
o interminável cordel
alfinetando meu corpo
nordestino e tropical.
Ai que vontade de viver aqui
ao pé dos Alpes
ou num cartão-postal suíço qualquer
pastoreando eldeweiss.
Aqui
filosofar é trivial. Tão natural
quanto criar gerânios e violetas
num prado banal de borboletas.
O que eu queria
era ver:
Nietzsche
Kant
Heidegger
Schopenhauer
matutarem
– ali no agreste.
era ver:
Nietzsche
Kant
Heidegger
Schopenhauer
matutarem
– ali no agreste.
O que eu queria
era ver
o nada
nascer
do nada
– e crescer
ali
onde cedo se aprende
a não ser nada
– e obedecer
ali
onde o homem não tem essência,
só fome, e a aparência é a carência
do próprio ser.
Queria ver filosofar
era ali
no Catolé do Rocha e Nanuque
ali
onde mulher derruba boi a muque
e enfrenta com o homem
os torneios da própria fome
ali
onde a mulher aprende a ingaia ciência
no curral da própria saia
ali
no ciclo bretão da seca
onde o boiadeiro tange o gado magro
dos 12 pares de França
e enfrenta Ferrabrás
e canta e dança
ali
no áspero sertão onde Rolando
se chama Lampião e morre na tocaia
e na trapaça
ali
na pedra do dia a dia
na Serra Talhada
onde se engole a sede aos tragos
e se inscrevem as façanhas
de Carlos Magno e Vilmar Gaia
ali
Lutero não reforma mais os seus mourões
nem corta o mato e o cupim
ali
Thomas Morus
com seu gibão de couro amarelo
pachorrento
se assenta nas barras do curral do dia
e ordenha com sabor de sal
a sua magra utopia.
era ver
o nada
nascer
do nada
– e crescer
ali
onde cedo se aprende
a não ser nada
– e obedecer
ali
onde o homem não tem essência,
só fome, e a aparência é a carência
do próprio ser.
Queria ver filosofar
era ali
no Catolé do Rocha e Nanuque
ali
onde mulher derruba boi a muque
e enfrenta com o homem
os torneios da própria fome
ali
onde a mulher aprende a ingaia ciência
no curral da própria saia
ali
no ciclo bretão da seca
onde o boiadeiro tange o gado magro
dos 12 pares de França
e enfrenta Ferrabrás
e canta e dança
ali
no áspero sertão onde Rolando
se chama Lampião e morre na tocaia
e na trapaça
ali
na pedra do dia a dia
na Serra Talhada
onde se engole a sede aos tragos
e se inscrevem as façanhas
de Carlos Magno e Vilmar Gaia
ali
Lutero não reforma mais os seus mourões
nem corta o mato e o cupim
ali
Thomas Morus
com seu gibão de couro amarelo
pachorrento
se assenta nas barras do curral do dia
e ordenha com sabor de sal
a sua magra utopia.