Num monumento ao orgasmo
por Danilo Ribeiro
1.
Eu quero ouvir grito e brado
ouvir num berro rasgado
só sou feliz em pecado
fazendo a evocação
ao tântrico monumento
a Safo, a Sade, alimento
de Hilst o aviamento
cantando em oito a quadrão.
2.
O reizinho brocha fez publicar
no diário oficial do império
uma nova regulamentação.
Proibiram-se peremptoriamente,
ao comum do povo e a toda a nobreza,
as investidas com fins à gozada.
Decretou-se subversiva a punheta.
Vedaram-se lambidas e dedadas.
Os paus, diz a regra, têm que estar moles.
Pras bocetas sequidão absoluta.
Determinou-se contagem geral
das pregas dos cus de todos da corte.
Dura lex, sed lex, disse o rei.
Uns radicais, como já esperado
não se submeteram a tal decreto.
Dura lex no cu do Rei, disseram.
(Moral da história)
Claramente: o mais prático dos sois,
o sol amplificado da gozada!
3.
A viola toca Vênus
das Peles, e os seus somenos
formatos tão escalenos;
importa a devassidão.
E se eu não souber cantar?
Se minha rima falhar?
A métrica desandar
de quatro ou oito a quadrão?
Mando Pinto pra Monteiro
deixo de ser violeiro
não embolo meu pandeiro
largo o repente de mão
abandono a cantoria
Sacher-Masoch alforria
escravos da putaria
em oito pés a quadrão!
4.
Convergem: a aparência e os efeitos.
Gosto úmido de sexo na língua,
cuja ausência reduz o corpo à míngua,
é o gosto estético de chupar peitos,
tal o espasmo nos ares rarefeitos
do orgasmo que ao corpo arrebatado
causa completa dormência na mão
descompassa súbito o coração
numa foda em martelo agalopado.
5.
Formas variadas e sutilezas;
posições diversas e experimentos;
igualmente diversos os movimentos;
transcendem de ser-em-si pra belezas;
tornam além-ato e vastas grandezas;
sublimam gigantemente o gozar;
se a rima do estribilho for amor;
se o coração palpitar de tremor;
deitado com ela na beira do mar!
É na beira do mar!
É na beira do mar!
--*--*--